André Carvalho
The Garden of Early Delights
CD Outside in Music 2019

 

 

Terceiro disco de André Carvalho, The Garden of Early Delights inspira-se na obra (delirante) de Hieronymus Bosch para criar a longa suite que agora apresenta. A viver em Nova Iorque desde há anos, Carvalho convocou para o CD um sexteto onde apenas ele e André Matos são portugueses, este último também a viver em Nova Iorque. Nada de significativo, já que o Jazz é uma linguagem universal e os nove temas que compõem a obra contêm um forte componente de escrita, que farão dela uma obra conceptual, mesmo se nela o contrabaixista ofereça bastante espaço aos músicos, embora sempre de forma localizada.

É um disco bastante «visual»; o autor recria as histórias (ou procura transpor as imagens) que o tríptico de Bosh conta, de forma bastante conseguida, embora talvez prejudicando a espontaneidade e a individualidade. É óbvio que são aqueles músicos que lá estão, e não outros, são as suas personalidades, mas sempre submetidos a uma história e a uma estrutura. E nesse sentido Carvalho coloca-se do lado de uma concepção do Jazz contemporâneo que valoriza a escrita e a composição, ao invés de um Jazz tradicional, menos espartilhado.

É possível encontrar em The Garden of Early Delights elementos da música portuguesa, como do pop/ rock «de culto», ou outros, como já tinha sido notado, sempre tocados com bastante veemência e alegria, por um grupo de músicos de vastos de recursos, que souberam transpor com acerto para a música as ideias e a riqueza imagética do André Carvalho compositor.

Melodioso quando necessário, ácido, desconcertante, criativo, o melhor disco de André Carvalho, a ouvir com premência.

Oskar Stenmark (t, flis)
Eitan Gofman (st, f, clb)
Jeremy Powell (ss, st, f)
André Matos (g)
André Carvalho (ctb)
Rodrigo Recabarren (bat, per, bombo legüero)